Comunidades Surdas

(Por Hugo Eiji)

As comunidades surdas, como espaços de partilha linguística e cultural presentes em milhares de cidades do mundo, reúnem Surdos e ouvintes – em geral, usuários de línguas de sinais – com interesses, expectativas, histórias, olhares ou costumes comuns.

A ideia de comunidade, aqui, apoia-se na presença de vínculos simbólicos que congregam sujeitos – concentrados em um mesmo local ou dispersos territorialmente – com interesses comuns e propostas coletivas. O termo, corrente nos Estudos Surdos e entre militantes e profissionais ligados à causa Surda, é comumente usado em sua acepção ampla (por vezes, de forma aligeirada e vaga) para delimitar os espaços de existência (e resistência) de uma minoria linguística com marcadores culturais próprios.

Sobre o uso do termo, autores como “Lane, Hoffmeister e Bahan (1996) descartam ‘comunidade surda’ por considerarem muito inclusivo e preferem a expressão ‘mundo surdo’, restringindo-o apenas àqueles que usam a língua de sinais e se identificam com a cultura surda” (MAGNANI, 2007, p. 3).

Neste blog, usa-se a expressão “comunidades surdas”, em sua acepção ampla, para designar o conjunto de Surdos e ouvintes unidos por uma série de afinidades e vínculos simbólicos. A escolha lexical, em consonância com o uso corriqueiro, tem antes a intenção de tornar operativa a expressão nesse (con)texto virtual que apontar para qualquer problematização ou aprofundamento sociológico.

Entende-se “comunidade surda” como um espaço de trocas simbólicas em que as línguas de sinais, a experiência visual e os artefatos culturais surdos são partilhados entre sujeitos Surdos (e ouvintes) que congregam interesses comuns e projetos coletivos. Um espaço que acena para outras possibilidades de existir e vivenciar a diferença, para além das práticas e discursos ouvintistas.

“Para que um grupo se constitua e se configure como uma comunidade, algumas condições são necessárias. Temos como exemplos: afinidades entre os diferentes indivíduos que constituem o grupo, interesses comuns que possam conduzir as ações do grupo por caminhos comuns, continuidade das relações estabelecidas, bem como tempo e espaço comuns, em que os encontros do grupo possam acontecer” (LOPES; VEIGA-NETO, 2006, p. 82).

A formação das comunidades surdas, onde as forças hegemônicas (ouvintistas) são refratadas por novos olhares e práticas sobre a surdez, decorrem – em grande medida – da expressão de identidades de resistência [1] e identidades de projeto [2] de parte do povo surdo, como as define Castells (2001).

Aqui, nega-se a surdez biológica, inscrita no corpo, como elemento restritivo de pertença. Pela perspectiva aqui anunciada, entende-se que as comunidades surdas são também formadas por diferentes sujeitos ouvintes (como familiares de surdos [3], cônjuges, amigos, intérpretes de línguas de sinais, profissionais que trabalham com a surdez, etc.), entre outros que tomam parte nas diferentes atividades desses grupos.

Dentre os lugares de realização das comunidades surdas, hoje, destacam-se Associações de Surdos, grêmios desportivos, escolas e instituições, festas e eventos, pontos de encontro [4], espaços de convívio, ambientes virtuais, reuniões familiares, etc. Lopes e Veiga-Neto (2006) citam a proeminência da escola de surdos como território de aproximação e convivência, onde “são estabelecidos modelos de ser surdo, servindo como balizas para que ações de normalização sejam investidas na e pela própria comunidade surda, quando essa estabelece um tipo normal de ser surdo a ser seguido” (LOPES; VEIGA-NETO, 2006, p. 83).

É nas comunidades surdas, na interação com o outro-surdo e com o mundo ouvinte, que diferentes trajetórias se encontram, que – na multiplicidade de vozes e de sinais – recriam-se as identidades Surdas, as narrativas pessoais, os marcadores culturais, as lutas e os discursos que permeiam os grupos Surdos. Os próprios conceitos subjacentes ao “ser Surdo” são produzidos e reconstruídos, em parte, na experiência das diferentes comunidades: “alguns enfatizam mais os aspectos políticos, outros os aspectos referentes à língua de sinais e artes, alguns mantêm um tipo ‘ser surdo’ como minoria, como comunidade, como povo” (PERLIN; MIRANDA, 2003, p. 220).

A busca pelo semelhante, por segurança, conforto e interlocutores possíveis, que compartilham formas de comunicação visual, além de expectativas e projetos comuns, fazem das comunidades surdas espaços de respiro para muitos sujeitos, onde podem conviver – ao contrário do que acontece alhures – sem as marcas estigmatizantes carimbadas por olhares ouvintes.

Embora espalhadas por diferentes cidades do mundo, inseridas em culturas e contextos bastante distintos, as milhares de comunidades surdas apresentam uma série de afinidades, bandeiras, práticas e projetos comuns. A população global de Surdos é atualmente estimada em algumas dezenas de milhões de indivíduos, o tamanho de um país mediano; “no entanto, é um ‘país’ sem um ‘sítio’ próprio. É uma cidadania sem uma origem geográfica” [5] (WRIGLEY, 1997, p. 13).

Com a profusão de novos recursos tecnológicos, as interações entre surdos e surdos/ouvintes, local e globalmente, ganharam novos tracejados. Se antes a comunicação presencial, imediata, era das poucas formas possíveis de partilha entre surdos, hoje – com a rica variedade de aparelhos e gadgets eletrônicos – as trocas comunicativas, os registos e o acesso a informações e produções culturais próprias se dinamizaram, estreitando e fortalecendo os vínculos entre partes do povo surdo, mesmo que física e geograficamente distantes.

Mensagens de texto trocadas entre celulares, dispositivos de captura e partilha de vídeos que permitem conversas à distância (em língua gestual) e possibilitam o registo e a promoção de produções culturais, aplicativos e redes sociais virtuais que congregam e fomentam o compartilhar de ideias, ideais, notícias, histórias, ficheiros, entre outros novos suportes que medeiam os processos informacionais e comunicativos entre surdos e surdos/ouvintes dão novos poderes de articulação e mobilização a esses grupos.

As comunidades surdas, assim, divulgam-se, empoderam-se, reconfiguram-se, reterritorializam-se, ganham novas e movediças fronteiras, tendo a Internet como uma das mais importantes interfaces de afirmação identitária. Aqui, em ambiente virtual, por meio de textos, vídeos, imagens, blogs, encontros, discussões, etc., reverberam novos discursos sobre a alteridade.

 

– – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – –
[1] “(…) criada por actores que se encontram em posições/condições desvalorizadas e/ou estigmatizadas pela lógica da dominação, construindo, assim, trincheiras de resistência e sobrevivência com base em princípios diferentes dos que permeiam as instituições da sociedade, ou mesmo opostos a estes últimos” (CASTELLS, 2001, p. 4).
[2] “(…) quando os actores sociais, servindo-se de qualquer tipo de material cultural ao seu alcance, constroem uma nova identidade capaz de redefinir a sua posição na sociedade e, ao fazê-lo, de procurar a transformação de toda a estrutura social” (CASTELLS, 2001, p. 5).
[3] Nesse universo, algumas siglas e expressões são comumente repetidas, como os termos CODA (Children of Deaf Adult, filhos de pais surdos), SODA (Sibling of Deaf Adult, irmãos de surdos) e TILS (Tradutor e Intérprete de Língua de Sinais).
[4] Muitos deaf spaces são encontrados pelo mundo, de praças e restaurantes a carruagens de comboios, como a carruagem para “deficientes físicos” dos comboios de Mumbai, um espaço comumente usado por Surdos da cidade, como descreve Kusters (2009).
[5] “Yet it is a ‘country’ without a ‘place’ of its own. It is a citizenry without a geographical origin”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Leia também:
Um pouco de história  |  Questão de identidade  |  Culturas Surdas  |  Aspectos culturais