Cultura Surda?

(Por Hugo Eiji)

Cultura é palavra movediça, dada a diferentes compreensões. A amplitude do conceito, atravessada por uma série de senãos, não raro provoca imbróglios quanto às delimitações e aos usos do vocábulo. Nesse pantanal conceptual, ainda mais problemática é a assumpção da expressão “cultura surda”.

Os dissensos sobre a definição do termo cultura atravessaram os últimos séculos e, ainda hoje, suscitam vozes (e gestos) dissonantes.

“(…) a discussão não terminou – continua ainda –, e provavelmente nunca terminará, pois uma compreensão exata do conceito de cultura significa a compreensão da própria natureza humana, tema perene da incansável reflexão humana” (LARAIA, 2008, p. 63).

Nesse emaranhado de distensões, a afirmação das culturas surdas desafia postulados já muito arraigados no senso comum, que comumente reage assustado à ideia de se compreender a surdez por uma perspectiva sócio-antropológica, para além de abordagens patologizantes.

A afirmação de uma (ou várias) cultura surda implica o reconhecimento de olhares, comportamentos, costumes e práticas específicas de um grupo linguístico minoritário, e faz-se esteio para grande parte das lutas travadas por essas comunidades. Mais que uma empreitada teórica, a celebração das culturas surdas é ponto-chave de uma série de argumentos e bandeiras políticas do povo surdo.

Aqui, sem a intenção de enveredar pelos desdobramentos conceituais do termo, entender-se-á cultura como um conjunto de significados e práticas simbólicas partilhado por um determinado grupo, transmitido e refeito entre diferentes gerações. Cultura assumida não como um estado, tampouco como algo acabado, fechado ou estagnado: mas como um processo (com sua lógica e dinâmica própria) que constantemente se reconfigura nas interações dos sujeitos que a partilham. Como afirma Laraia (2008, p. 49), trata-se de “um processo acumulativo, resultante de toda a experiência histórica das gerações anteriores”.

Fundada em uma estrutura material e atrelada a um determinado contexto histórico, a cultura é produto e produtora de significações e ações humanas – uma dimensão do processo social que conforma modos de ver, pensar e sentir o mundo por meio do aprendizado de esquemas perceptivos e interpretativos específicos. Mais que um sistema integrado de padrões de conduta, cultura é também um conjunto de mecanismos de controle, sujeição e normatização dos indivíduos que a partilham.

A ideia de uma cultura surda funda-se, primeiramente, na afirmação de um modo particular de compreender e expressar a realidade, especificamente proporcionado pela experiência visual e pelo uso de uma língua de modalidade viso-motora (visual-gestual) como configuradora do discurso. Tendo como espaços privilegiados de (re)produção as comunidades surdas, a cultura surda opera como um conjunto de práticas e produções específicas que delimitam um locus de reafirmação cultural, histórica, política e linguística, sustentando e reforçando vínculos e expressões identitárias entre os sujeitos que a compartilham.

O uso da expressão cultura surda, assim, aparece em contexto conflituoso, de resistência às práticas de normalização do sujeito surdo. Se a concepção sócio-antropológica da surdez potencializou as novas compreensões sobre o “ser Surdo” e sobre as línguas de sinais, assim como segue a desvelar as várias formas de opressões ouvintistas exercidas contra esses indivíduos, a afirmação da cultura surda surge como importante força contra-hegemônica que se opõe à aculturação (colonização) audista. É também um posicionamento político que valoriza a possibilidade de realização humana que contempla a diferença. Como afirma Santos:

“Cultura é um território bem atual das lutas sociais por um destino melhor. E uma realidade e uma concepção que precisam ser apropriadas em favor do progresso social e da liberdade, em favor da luta contra a exploração de uma parte da sociedade por outra, em favor da superação da opressão e da desigualdade” (SANTOS, 2010, p. 45)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 

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