Identidades Surdas

(Por Hugo Eiji)

Distantes dos discursos do “corpo danificado” e dos compêndios da medicina, muitos sujeitos surdos lutam hoje pelo reconhecimento da surdez como uma, entre outras tantas, formas de estar no mundo – assumindo os conflitos e a complexidade que esta frase, de aparência ingênua, apresenta. Em inúmeras comunidades surdas, uma luta comum se desenha no dia-a-dia: a luta pelo reconhecimento da surdez como diferença.

“A diferença, como significação política, é construída histórica e socialmente; é um processo e um produto de conflitos e movimentos sociais, de resistências às assimetrias de poder e de saber, de uma outra interpretação sobre a alteridade e sobre o significado dos outros no discurso dominante” (SKLIAR, 2005b, p. 6).

Assim, por uma ruptura epistemológica, a surdez ultrapassa o campo discursivo das deficiências, da patologia e dos vários enunciados biomédicos para ocupar um lugar privilegiado no campo dos estudos da cultura, das ciências sociais, da linguística e da educação, como um objeto novo a suscitar cada vez mais interesse por parte de militantes e investigadores. Para além de narrativas clínicas e de postulados médicos, falar e sinalizar sobre a surdez é adentrar por questões de identidades, expressões culturais, diferenças, lutas por conquistas e efetivações de direitos. Os deslocamentos de linguagem que aos poucos se promovem no terreno dos Estudos Surdos são, muito mais que revisões terminológicas, rompimentos com as epistemes [1] que sustentam discursos ouvintistas. Velhos termos são problematizados, colocados em questão. Outros são ressignificados, promovidos e trazidos à baila na torrente de transformações dos olhares sobre a surdez.

Ao contrário de visões caritativas, filantrópicas e paternalistas em relação aos sujeitos surdos, fundadas sobre a preeminência da falta, as novas compreensões concretizam a afirmação do Ser Surdo como uma forma positiva de existir, que se desdobra em uma série de expressões identitárias, a confrontar a ideia de condição limitante e patológica que precisa ser superada.

Por isso, se antes eram percebidos como “portadores” de uma enfermidade que os apequenava diante de um mundo ouvinte, ou como deficientes (na acepção vulgar e redutora do termo) acolhidos com caridade por instituições filantrópicas-assistenciais, hoje muitos surdos enlaçam-se em lutas políticas, organizados em associações e movimentos populares, a reafirmar e reivindicar direitos.

A afirmação das identidades surdas é hoje uma das principais forças-motrizes das lutas desses grupos minoritários [2] em diferentes países do mundo. Identidade, aqui, entendida como um “processo de construção do significado com base num atributo cultural, ou ainda um conjunto de atributos culturais inter-relacionados, o(s) qual(is) prevalece(m) sobre outras formas de significado” (CASTELLS, 2001, p. 3), enfatizada em seu aspecto transitório, contraditório, impermanente, contingente e não essencializado:

“A identidade torna-se uma ‘celebração móvel’: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam (Hall, 1987). É definida historicamente, e não biologicamente. O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um ‘eu’ coerente” (HALL, 2006, p. 13).

A afirmação da(s) identidade(s) surda(s), por conseguinte, não decorre imediata e inexoravelmente da condição biológica do não ouvir (da surdez inscrita no corpo); antes, funda-se em uma série de pressupostos políticos e culturais (e, por isso, históricos) que permitem aos sujeitos surdos novas, e possíveis, representações, significações e categorias sociais.

As inúmeras possibilidades de se vivenciar a surdez são reguladas, sugeridas, construídas, promovidas, problematizadas, negadas ou condenadas, cultural e historicamente. Desfaz-se o determinismo biológico que imputava ao sujeito “anormal” a via única da reabilitação. Por essas “novas” perspectivas, desessencializam-se e desnaturalizam-se as experiências surdas: para além de uma expressão causal e essencializada da materialidade do “corpo danificado”, entendem-se as identidades surdas como produzidas e constantemente redefinidas pelo contexto histórico e pelas relações de poder que se estabelecem em nossas sociedades. E como fontes de significação, produzidas por atos de criação linguística, tais identidades forjam formas de distinção entre um “eu” e os “outros”, entre “nós” e “eles”, continuamente reforçadas.

Nesse reconhecimento de novas identidades, assim, firmam-se as atribuições das diferenças e da significação do “eu” e do “outro” nos discursos dominantes, delimitando novos campos de lutas e resistências das comunidades surdas.

Gladis Perlin (2005), investigadora surda brasileira, cita algumas das várias identidades comuns entre o povo surdo (aqui, entende-se “povo surdo” como um conceito lato e abrangente: a população total de surdos, sejam usuários de línguas gestuais, sejam oralizados, sejam participantes ou não das comunidades surdas).

Entre diferentes identidades, Perlin aponta as identidades surdas (que muitos autores destacam pelo uso da letra inicial maiúscula: o “Surdo” [3]) como presentes em grupos de sujeitos que fazem uso da comunicação visual (as línguas gestuais) e partilham das comunidades e culturas surdas. Diversas práticas simbólicas, narrativas pessoais e discursos de resistência de muitos indivíduos Surdos tocam-se em uma série de pontos comuns, criando uma tênue linha que tece vínculos comunitários e (re)define a experiência da alteridade. No seio dos movimentos e dos espaços onde são interpelados à reafirmação identitária centrada no “ser Surdo”, a autora ressalta ainda a identidade política surda: “Trata-se de uma identidade que se sobressai na militância pelo específico surdo” (PERLIN, 2005, p. 63).

Como uma identidade de resistência, o específico Surdo firma-se na oposição à representação da surdez como menos-valia e no esforço contrário às investidas totalizadoras e homogeneizadoras das práticas de normalização ouvintistas. A assumpção da identidade Surda funda-se na oposição ao “ser ouvinte” e, assim como outros discursos identitários, atua de forma aglutinadora e mobilizadora (e, por isso, muitas vezes também totalizante e normalizadora). A experiência visual, o uso e a promoção das línguas gestuais como línguas primeiras e a partilha das comunidades e das práticas culturais surdas firmam-se como os principais eixos dessas expressões de identidades.

Em sujeitos que, nascidos ouvintes, tornaram-se surdos, a investigadora aponta as identidades surdas híbridas. Falantes nativos das línguas orais majoritárias, com experiência do mundo sonoro, a surdez e as línguas de sinais fazem-se condições sobrevindas ao universo da fala e da audição. “É uma espécie de uso de identidades diferentes em diferentes momentos” (PERLIN, 2005, p. 63), com a apropriação da língua gestual como segunda língua.

Ainda, a identidade surda de transição expressa-se em surdos que, após anos de “cativeiro da hegemônica experiência ouvinte” (PERLIN, 2005, p. 64), passam a frequentar as comunidades surdas e a partilhar das práticas simbólicas desses grupos. As novas interações surdo-Surdo, o aprendizado das línguas de sinais, as novas representações e discursos, aos poucos, refazem as formas de olhar, sentir, pensar e expressar o mundo desses sujeitos que vivenciam – em fase de transição – a des-ouvintização das representações da identidade.

Como grande parte dos surdos são filhos de pais ouvintes, não raro distantes das comunidades surdas e das línguas de sinais, o momento de descoberta (sejam ainda crianças, jovens ou adultos) de um novo mundo Surdo é comumente ressaltado com entusiasmo nas narrativas autobiográficas de muitos desses sujeitos: marcam-se como um ponto de mutação em que novos horizontes engraçam o olhar e, aos poucos, põem-se a desafiar a ideologia do normal.

“Os Surdos ‘apátridos’, filhos de pais ouvintes, têm nas suas memórias subterrâneas o sentimento de exclusão em relação às suas famílias de ouvintes. A ausência de uma língua competente, por mais de dez anos, leva muitos desses sujeitos a pensarem que estavam sozinhos no mundo, impossibilitando a construção do seu passado e futuro” (LONGMAN, 2007, p. 42).

A antiga sensação de despertencimento parece ganhar novos contornos na aproximação com o outro-Surdo e no encontro com as novas possibilidades de “ser” e de se comunicar. Esses momentos, em que prevalece a expressão da identidade surda de transição, para muitos figuram como tempos de redenção.

Em surdos que se distanciam das identidades, comunidades e culturas Surdas, figurariam as identidades surdas incompletas, como subjugadas à ideologia ouvinte dominante.

“A hegemonia dos ouvintes exerce uma rede de poderes difícil de ser quebrada pelos surdos, que não conseguem se organizar ou mesmo ir às comunidades para resistirem ao poder. Aí pode dar início ao que chamo de situações dominantes de tentativa de reprodução da identidade ouvinte, com atitudes ainda necessárias para sustentar as relações dominantes” (PERLIN, 2005, p. 64).

Vale ressaltar, mais uma vez, o caráter transitório, contraditório, contextual e contingente da ideia aqui assumida de identidade. Não como estados absolutos, permanentes e monolíticos que configuram e conformam de forma inabalável o sujeito, as várias identidades surdas – como construtos históricos e não como essenciais – são constantemente refeitas nas interações com o mundo ouvinte, nas encruzilhadas com os discursos dominantes e na convivência com o outro-surdo.

A celebração das identidades surdas, no que diz respeito aos seus caráteres inconstantes, imprevisíveis, não fixos, rejeita e opõe-se à ideia de essência que tanto assola o cotidiano da surdez.

“Reconhecer-se numa identidade supõe, pois, responder afirmativamente a uma interpelação e estabelecer um sentido de pertencimento a um grupo social de referência. Nada há de simples ou de estável nisso tudo, pois essas múltiplas identidades podem cobrar, ao mesmo tempo, lealdades distintas, divergentes ou até contraditórias. Somos sujeitos de muitas identidades. Essas múltiplas identidades sociais podem ser, também, provisoriamente atraentes e, depois, nos parecerem descartáveis; elas podem ser, então, rejeitadas e abandonadas. Somos sujeitos de identidades transitórias e contingentes” (LOURO, 2000, p. 6).

Assume-se, neste texto e neste blog, as tipologias identitárias citadas por Perlin (2005), entendendo-as como definições terminológicas fundadas sob uma perspectiva Surda, com intencionalidades políticas claras e atuais, como a valorização, a promoção e a defesa dos direitos dos Surdos e das comunidades surdas, com ênfase em seus patrimônios linguísticos e culturais.

Alguns pormenores precisam ser postos, porém, em uma breve paragem que se quer segura em meio a arames-farpados.

Investigar a surdez, o povo surdo, as comunidades e culturas surdas, é adentrar por um universo heterogêneo, cheio de contradições, atravessado por um sem-fim de fatores, ligados ou não ao atributo surdo.

Há diferentes tipologias e etiologias da surdez (surdez leve, moderada, severa ou profunda; condutiva, neurossensorial, mista, etc). Há surdos congênitos [4], surdos pré-linguísticos [5] e pós-linguísticos [6]. Há surdos usuários das línguas de sinais, há surdos oralizados, há surdos que transitam – sem grandes constrangimentos, nem dificuldades – entre os gestos e a fala. Há surdos usuários de aparelhos auditivos (Aparelhos de Amplificação Sonora Individual – AASI), há surdos implantados (Implantes Cocleares – IC), há surdos que, por uma série de motivos, rejeitam e desdenham quaisquer tipos de próteses. Há surdos filhos de pais ouvintes (a grande parte dos surdos), há surdos filhos de pais surdos. Entre esses e tantos outros “hás”, emerge um mundo de diferenças ligadas à surdez.

Em países como o Brasil, ou em outros em que a pobreza é um problema comum a grande parte da população, a Surdez (como outras expressões identitárias) enovela-se a uma série de fatores sócio-econômicos, sendo por eles redefinida.

Assim, antes de se adentrar por discussões como “oralização x língua de sinais”, “inclusão no ensino regular x promoção de escolas bilíngues”, “uso ou não de próteses eletrônicas”, etc., faz-se necessário salientar o fato de que (em muitas partes do mundo) uma parcela considerável do povo surdo sequer tem acesso à educação formal, a serviços básicos de saúde ou ao lazer, tampouco contato com outras pessoas Surdas. Muitas vezes são alijados não só de uma vivência escolar como do aprendizado de uma língua (seja oral ou gestual), ficando – quando muito – restritos ao uso de sinais caseiros, convencionados e articulados em âmbito doméstico.

A miséria, a falta de acesso à educação e ao sistema de saúde, as condições precárias de subsistência, entre outros problemas sociais, produzem formas ainda mais perversas de marginalização, reforçando e refazendo situações excludentes já impostas a sujeitos surdos. As “exclusões” (ou “inclusões perversas” em estruturas sociais injustas, flageladas pelos interesses do grande capital) dão-se em várias instâncias e por vários fatores (raciais, étnicos, econômicos, ligados a questões de gênero, etc.) que as legitimam e as reproduzem.

Assim, destaca-se a importância de se redefinir as experiências da surdez enredadas entre diferentes condições materiais e entre várias expressões identitárias, sem imaginá-las unívocas, essencializadas, totalizantes e (re)produtoras de expectativas e comportamentos únicos. A surdez, por isso, é entendida como um entre outros vários fatores que atravessam os sujeitos.

Evangélicos, muçulmanos, budistas, negros, brancos, indígenas, moradores de grandes centros urbanos, habitantes de pequenos vilarejos rurais, pobres, ricos, heterossexuais, gays, universitários, não escolarizados, asiáticos, latino-americanos… Inúmeras categorias compõem, fluidas e emaranhadas ao atributo surdo (em todas as suas diferenças), um mosaico impermanente que recria, em incontáveis combinações, infinitas possibilidades de “estar no mundo”, marcadas por uma série de conflitos e distensões.

Falar em povo surdo, assim, não é assumir a imagem cristalizada de um sujeito Surdo usuário de língua gestual, que partilha das comunidades e das práticas culturais Surdas; tampouco é reforçar estereótipos ouvintizadores da surdez. É, antes, atentar à diferença e entender esse universo como um campo de forças complexo, não harmônico, movimentado por diferentes atores e lugares do discurso.

Neste blog, enfatizam-se os grupos Surdos usuários de línguas de sinais, que partilham das comunidades e culturas surdas, promovendo suas lutas, práticas e produções culturais.

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[1] Aqui se entende episteme como o solo de onde crescem as várias redes de enunciados, significados e discursos que permeiam a surdez.
[2] “Grupo minoritário”, aqui, é entendido como “um lugar onde se animam os fluxos de transformação de uma identidade ou de uma relação de poder. Implica uma tomada de posição grupal no interior de uma dinâmica conflitual” (SODRÉ, 2005, p. 12). Com algumas características básicas, como a vulnerabilidade jurídico-social, a manutenção de lutas contra-hegemônicas e a criação de estratégias discursivas de resistência, a noção de minorias “refere-se à possibilidade de terem voz ativa ou intervirem nas instâncias decisórias do Poder aqueles setores sociais ou frações de classe comprometidos com as diversas modalidades de luta assumidas pela questão social” (SODRÉ, 2005, p. 11).
[3] Diferenciação adotada em várias línguas (Deaf, Sourd, Sordo, etc.) para indicar sujeitos que assumem as identidades surdas e as identidades políticas surdas.
[4] Nascidos surdos.
[5] Pré-linguais ou pré-locutivos: que perderam a audição antes da aquisição da língua oral.
[6] Pós-linguais ou pós-locutivos: que perderam a audição após a aquisição da língua oral.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Leia também:
Um pouco de história  |  Questão de identidade  |  Culturas Surdas  |  Aspectos culturais