Associações / Espaços

(Por Hugo Eiji)

Se há algumas décadas as associações de Surdos eram espaços marginalizados, ensimesmados e, às vezes, clandestinos, como redutos de fuga para aqueles que queriam (con)viver e sinalizar sem os olhares hostis da vigilância ouvintista, hoje essas associações movimentam-se no sentido da promoção e divulgação das culturas surdas.

Se antes “dentro” era o espaço protegido, arredio à entrada dos gestos proibitivos de familiares e profissionais ouvintes, agora as associações são ambientes abertos, receptivos à interação com o outro-ouvinte, onde são feitos esforços para que os discursos que ali se multiplicam extrapolem as paredes do edifício e transformem, alhures, o que há de contrário à afirmação das identidades Surdas.

Sejam municipais, estaduais, nacionais ou internacionais, as associações de Surdos, em diferentes instâncias, oferecem aos seus sócios e familiares uma rica rede de apoios e vivências. São, sobretudo, espaços de convívio e formação, onde famílias e sujeitos Surdos – assim como ouvintes ligados às comunidades surdas – partilham momentos livres, cursos, oficinais, assembleias, eventos culturais, atividades desportivas, etc.

Com estatutos próprios e regidas por diretrizes e regulamentos internos, as associações de Surdos contam com dezenas, centenas e até milhares de associados, que a elas se filiam por meio da contribuição de suas quota-partes. Muitas firmam parcerias com empresas privadas, organizações civis, órgãos do Estado, universidades ou outras instituições para incrementarem e promoverem a participação de seus associados na vida pública das regiões em que se localizam.

Em âmbito internacional, algumas associações também cumprem funções representativas, levando a cabo as lutas surdas perante a governos, organizações e companhias. A World Federation of the Deaf (WFD), por exemplo, congrega associações de surdos espalhadas por mais de 130 países e promove a defesa dos direitos humanos – com foco nos sujeitos Surdos usuários das línguas de sinais – em organismos como a Organização das Nações Unidas (ONU), Organização Mundial da Saúde (OMS), Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), etc., onde desempenha atividades consultivas.

Essa e outras associações internacionais, como a European Union of the Deaf (EUD), alinham-se em alguns postulados básicos, que se desdobram, com frequência, na luta pelo reconhecimento e pelo empoderamento (empowerment) das línguas de sinais, nas jornadas por melhores ofertas educativas a crianças, jovens e adultos surdos, nos movimentos pelo acesso a informação e serviços básicos, nas campanhas de conscientização sobre direitos humanos e diferenças e no estímulo/fomento à criação de associações locais de surdos, como forma gregária de se potencializarem as demandas desse povo.

Outras instituições que não as associações regionais também atuam como importantes pontos de articulação e mobilização de sujeitos surdos. Além das escolas de Surdos, também atuam como polos de convívio e de produção de conhecimentos de, para e sobre as comunidades surdas instituições de pesquisa, organizações temáticas [1] e transversais, ONGs e movimentos sociais.

No Brasil, destacam-se as ações missionárias de grupos religiosos no seio do povo surdo. Algumas igrejas, em especial as cristãs (sejam evangélicas, católicas ou Testemunhas de Jeová), contam com um largo trabalho de evangelização entre as comunidades surdas.

Nas décadas de 1980 e 90, enquanto pouco se comentava, no país, sobre as línguas de sinais, grupos religiosos já difundiam materiais sobre essas “linguagens”, como o dicionário “Linguagem das Mãos”, escrito pelo missionário católico Eugênio Oates (1988). Além desse livro-manual, outras obras ligadas a grupos católicos, luteranos, batistas e Testemunhas de Jeová, que publicizavam formas de comunicação manual, foram impressas nos anos 1980.

Atualmente, ministérios e pastorais reúnem milhares de surdos e ouvintes que comungam as escrituras sagradas e as línguas de sinais. E se outrora o efatá (“abra-se”) bíblico narrava a cura de um surdo-mudo por Jesus Cristo, hoje – com os novos discursos sobre a surdez a permear as práticas cristãs – o efatá refere-se, sobretudo, à cura da surdez espiritual de quem não ouve as palavras de Deus (SILVA; TEIXEIRA, 2008, p. 8): e a cura metafórica desse alheamento à mensagem de Jesus dá-se pelo aprendizado dos textos religiosos – que pelos Surdos é feito, principalmente, por meio das línguas de sinais.

Assim, na exegese contemporânea de alguns grupos de fiéis, o efatá diz respeito não à cura fisiológica do Surdo, tampouco a uma tentativa de normalização do corpo danificado, mas à sua catequização e à sua possibilidade de congraçar as doutrinas cristãs. Por seu valor religioso e seus conteúdos litúrgicos em L.S, somados ao bom acolhimento [2] e à forma como valorizam e promovem algumas práticas Surdas, muitas igrejas figuram também como importantes espaços de articulação e convívio de sujeitos Surdos.

Para além da vida religiosa, a lida com os desportos também ganha outras configurações sob as perspectivas surdas. Em associações desportivas, Surdos de todas as idades reúnem-se para praticar esportes (alguns com adaptações) individuais e coletivos.

A Confederação Brasileira de Desportos dos Surdos (CBDS) e a Liga Portuguesa de Desporto para Surdos (LPDS) são duas associações, entre centenas, que congregam atletas surdos. Com torneios de futebol, futsal, basquete, natação, atletismo, boliche, pesca, artes marciais, etc., as confederações promovem não só a vivência entre Surdos locais como a integração de Surdos originários de diferentes cidades e países.

Nas Deaflympics (usualmente traduzida para a língua portuguesa como Surdolimpíadas), que acontecem quadrienalmente desde 1924, Surdos de quase 80 nações competem em mais de 20 modalidades. Milhares de atletas e espectadores participam desses grandes eventos, sediados em centros urbanos como Taipei (2009), Melbourne (2005), Roma (2001), Copenhagen (1997), Sofia (1993) ou Christchurch – Nova Zelândia (1989). Em biênios alternados ocorrem também as Winter Deaflympics (Surdolimpíadas de Inverno), que reúnem esportes como hóquei no gelo, snowboard, esqui e curling [3].

Nos últimos anos, para além das agremiações políticas, culturais, religiosas e desportivas de Surdos, novos espaços começaram a surgir como pontos de encontro e de promoção/divulgação das comunidades surdas. Bares, cafeterias, restaurantes, lojas, festas e casas noturnas começaram a se especializar nesse promissor nicho de mercado: seja contratando funcionários surdos, seja criando espaços acessíveis para bem atendê-los [4]. E se uma demanda latente começa a transbordar, silenciosa, entre os gestos de sujeitos Surdos, um pequeno grupo de micro empresários, em diferentes países, já começa a explorar esse novo filão – entre esses empreendedores, destacam-se alguns Surdos.

Não só feitos por e para Surdos, muitas dessas iniciativas procuram também promover as línguas de sinais e as práticas culturais das comunidades surdas entre o grande público ouvinte. Tais sítios firmam-se como pontos multiplicadores onde, além de se passar a palavra sobre a riqueza do mundo Surdo, passam-se também os gestos.

Entre um sem-número de atividades, vê-se o quão ampla é a diversidade de eventos que se multiplicam nas comunidades surdas de todo o mundo. Uma rica oferta cultural é vivenciada, mesmo que ainda distante dos olhares curiosos do mainstream ouvinte, nos meandros do povo surdo.

Festas tradicionais, encontros, grupos temáticos (como os grupos de motociclistas Surdos, tatuadores Surdos, gamers Surdos, atores, adeptos, LGBTs, etc.), discotecas, restaurantes, bares, museus, eventos desportivos, concursos de misses (como os famosos Miss Deaf World e Miss Deaf International, que reúnem misses surdas de dezenas de países), hubs [5], congressos, festivais (que se acumulam aos milhares), pastorais e ministérios religiosos, associações, entre centenas de outras organizações associativas, empreendimentos e eventos realizados sob as exigências da experiência visual, das línguas de sinais e das práticas simbólicas Surdas fazem dessas culturas universos extremamente ricos e cheios de possibilidades. Para os que começam a descobrir esses meandros, a empreitada é fascinante e cheia de surpresas.

 

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[1] Como a Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (Feneis), no Brasil.
[2] As relações das igrejas cristãs com o povo surdo são cheias de pontos para serem problematizados, que envolvem uma série de ações sectárias (algumas vezes fundadas em discursos sexistas e homofóbicos, por exemplo) enoveladas em discursos de valorização da diferença (no caso, a surdez). Aqui, importa apontar para o vulto dessas instituições como espaços de convívio de Surdos, sem se prender a essas lucubrações de cariz sociológico.
[3] Em 2011 não houve uma edição desses jogos, tendo o último evento ocorrido em 2007 na cidade de Salt Lake (EUA), antecedido por Sundsvall (2003) e Davos (1999).
[4] Nota-se, porém, que nem todos os empreendimentos comerciais que contam com “colaboradores” surdos são iniciativas deaf-owned, deaf-friendly (sob a óptica do consumidor) ou surgidas dos desejos das comunidades surdas: alguns, de forma controvertida, beneficiam-se da contratação (por vezes precária) de um tipo de mão-de-obra barata que ainda lhes permite um verniz filantrópico e um ajustamento às novas demandas “éticas” da responsabilidade social empresarial; outros, projetados e dirigidos por ouvintes, são fundados em preceitos assistencialistas de ajuda e caridade, pautados pela óptica do surdo-deficiente.
[5] Espaços colaborativos de trabalho e empreendedorismo que há alguns anos vêm se espalhando pelo mundo. Comumente, pretendem articular um novo ambiente de trabalho – com instalações coletivas (salões, cozinhas, biblioteca, salas de eventos, etc.) – a uma rede de microempreendedores, ONGs, consultores, profissionais independentes e empresas que partilham de ideais comuns (sustentabilidade, transformação social, etc.).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

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