Acessibilidade Cultural e as Artes Surdas

(Por Hugo Eiji)

Novas formas de olhar, pensar, sentir e expressar o mundo têm ganhado espaço, pelas mãos de profissionais surdos, em alguns dos principais aparelhos culturais da cidade de São Paulo.

As culturas surdas, ao redesenharem as possibilidades desses aparelhos, começam a influir cotidianamente na dinâmica dos circuitos culturais majoritários, trazendo à superfície uma série de questões relativas ao Ser Surdo. Com isso, a máxima “nada sobre nós sem nós”, bandeira maior de muitos grupos minoritários, vai se firmando, ainda que a passos lentos, nas esferas de produção, circulação e consumo de bens culturais, no que diz respeito aos grupos surdos.

No entanto, para além da presença em si de profissionais surdos nesses equipamentos culturais, urge dar corpo à experiência das comunidades surdas (suas narrativas, suas línguas gestuais, suas bandeiras e lutas etc.) também por meio das produções artísticas que lhes dizem respeito: as Artes Surdas.

O termo Arte Surda (e, por extensão, produções surdas), mesmo entre aqueles que participam das comunidades surdas, não raro transita de forma imprecisa, incerta, amarrado a uma série de (in)definições. Entre tantas produções culturais feitas por, para e sobre pessoas surdas, então, o que se entende aqui como Arte Surda?

Arte Surda, aqui, é entendida como todas as produções artísticas que trazem à tona – em diferentes suportes – questões relacionadas às culturas surdas. Seja em pinturas, gravuras, esculturas, instalações, performances, produções audiovisuais, espetáculos teatrais etc., a Arte Surda convida – e convoca – o espectador à imensidão do mundo surdo, expressando de diferentes maneiras a história, as lutas, as línguas, as experiências cotidianas, os protagonismos, os marcadores culturais, as narrativas, as tensões, os desafios etc. que permeiam esse mundo, refratando os discursos ouvintistas que dia a dia seguem a apequenar a potência da diferença Surda.

A designação Arte Surda (conhecida também como De’VIA – Deaf View/Image Art, sobretudo no universo das artes plásticas, em alguns países de língua inglesa), assim, vincula-se às produções que têm em seu cerne a expressão de mundos e identidades surdas, independentemente de tais obras serem produzidas por pessoas surdas ou ouvintes. Em outras palavras, a definição é dada a partir dos elementos que compõem a obra e não pela condição física/sensorial de seu autor, o que em muito contribui para minar o gesto paternalista que comumente ronda o fazer artístico de pessoas com deficiência.

Ao ganharem os circuitos culturais majoritários, tais produções começam a extrapolar as fronteiras dos eventos específicos (realizados em associações, instituições, federações e escolas consagradas pelas comunidades surdas, por exemplo) e dos bastiões tradicionais que até há pouco figuravam como únicos espaços possíveis para a realização desse tipo de arte. Em decorrência disso, mais e mais pessoas – seja de corpo presente em aparelhos culturais ou imersas na profusão de conteúdos surdos que circulam pela Internet – passam a ter contato com as artes e as culturas surdas, ampliando as interfaces entre estas e o “mundo ouvinte”. O imenso e belíssimo patrimônio dessas culturas, enredado na riqueza do Deafhood (ou “surdidade”), vai assim se espraiando por diferentes lugares, tornando os espaços e meios mais plurais e positivando a experiência “daqueles com perda de audição”.

Com isso, também, desenvolvem-se novos campos de experimentações estéticas a partir de uma língua de modalidade visual-gestual, promovendo a fusão de diferentes linguagens e a pesquisa sobre essas novas intersecções.

Para que essa expansão seja acirrada, cabe a gestores, programadores culturais, artistas, profissionais de diversas áreas da cultura, entre outros, levarem a cabo a promoção das identidades e das culturas surdas em toda a cadeia cultural, da produção (garantindo políticas de fomento, recursos acessíveis, espaços de formação, etc.), à difusão/distribuição e ao consumo. Com isso, ganham não apenas as comunidades surdas ao difundir produções artísticas que delas emergem e que reafirmam os seus direitos e as riquezas imanentes de ser surdo, mas ganhamos todos e todas, ao termos contato com novas sensibilidades e novas formas de se fazer e de se pensar a arte.

Texto publicado no caderno Mediações acessíveis: ciclos de encontros sobre acessibilidade em espaços de educação e cultura / Instituto Tomie Ohtake (2018). 

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